Estou seguindo com as entrevistas e, a cada bate-papo mais claro fica, pra mim, a relevância deste projeto. E, por conseqüência, mais aumenta a minha responsabilidade em contar bem esta história.
As entrevistas com a Angela Gonzaga e o Marco Fronchetti, nesta semana, foram um prazer incrível! Foram horas de papo e lembranças gostosas e cheias de emoção. Aliás, falar sobre esta peça suscita muita emoção.
Ainda tenho, esta semana, um encontro com o Roberto Mallet que não vejo há uns 20 anos! Ele foi escriba da montagem e deve ter muita história boa pra contar.
E segue o barco...
No momento, dizem que é de praxe, estou um tanto travada com a tal da 'Sindrome da pós-qualificação'.
Porém, felizmente, quem tem amigos tem tudo! E minha querida amiga e colega Helena Mello conseguiu registrar quase estenograficamente, todas as falas da minha banca! E esse relato está me auxiliando bastante. Melhor impossível!
"Palmas para os vagabundos
Pensei que pudesse estar atrasada para a qualificação da Betha. A última vez que cheguei calmamente ao departamento, meu relógio estava errado. Mas, sai sem tomar café e precisava pelo menos comprar uma água. Cruzo a porta e esbarro na Betha sorridente com aquele chaveiro fashion laranja na mão. Éramos as primeiras. Mas, não demorou muito para que já estivéssemos na sala. Além do Gil, na banca a Silvana Goellner da ESEF, a Mirna e a Inês Marocco. (...)
Na “platéia” Rô, Cibele, Laura, Dani e eu.
A Betha parecia tranqüila e disse que, numa época de circulação do vídeo da Vanusa cantando o Hino do Brasil todo errado, o melhor seria ler o texto que ela havia escrito. Mas, ela fez isso de um jeito muito leve, entremeado de comentários que até agora não sei se estavam lá escritos ou se ela foi falando de improviso.
Teceu elogios rasgados a toda a turma. Falou até da Sede, o que fez com que a Mirna se virasse para mim e perguntasse: “é a tua casa?”. Daí, nossa mestranda vestiu a camiseta do projeto, literalmente falando. Linda por sinal. (Betha, pode me dar uma no Natal). Começou a apresentação do seu Power point. O texto A cotovia de Laurie Anderson, nossos já tão conhecidos Marco de Marinis, Bakhtin, Kristeva e chegava a hora de um vídeo sobre os catadores de lixo. Estávamos no ano de 1982. Situação política e teatral. Bom, não vou ficar descrevendo slide a slide se não vão ser muitas páginas. Mas, algo que eu achei engraçado é que mesmo quando a Betha esquecia as palavras parecia que fazia parte da pesquisa. Afinal, ela disse que falaria da memória.
Fotos do espetáculo. Música: “Nesta longa estrada da vida...”. Gil bate palmas. Mirna chora. Sim! Lágrimas escorrerem pelo rosto. Betha, visando a qualificação, além de colocar água nas mesas para a banca (sabe-se lá com que substância, uma encomenda feita para a Inês da Bolívia, como ela mesma disse), também tinha lenços de papel para oferecer para a nossa “flor de maracujá”.
Só então, a banca foi para os seus devidos lugares e a professora convidada começou. “É maravilhoso o que tu estás tentando fazer...” (como eu gostaria de ter escutado isso em algum momento...) Algo que considero mereça registro é que Silvana disse que no campo da historiografia parece que a cultura não tem importância nenhuma. Não tinha! Isso foi antes desta pesquisa. Também comentou que a palavra mais precisa não é “recuperar” o espetáculo, mas, “reconstruir”. Fez questão de destacar a autoria, o envolvimento com o tema e disse que é muito importante este exercício de distanciamento e aproximação que está sendo feito neste trabalho. Registrei em minhas anotações outra palavra que acho que todos nós precisávamos ouvir: parabéns. Sugeriu garimpar as fontes. Comentou o impacto que a pesquisa causará na cena gaúcha e do quanto isto é produtivo. E disse categoricamente e gentilmente: tens um tema, mas, não tens um problema! (Isso me lembrou algo...). Perguntou: o objeto da pesquisa é o espetáculo ou a Maria Helena Lopes? Disse que é preciso deixar claro o que vai ser de fato olhado e o que vai ser reconstruído. Falou que as perguntas das entrevistas estão vagas e criticou a palavra “coisa” em uma delas. (Que coisa tu lembras da peça?). Observou que a memória é algo vivo. E que entre o vivo e o narrado há muita diferença. Sugeriu Sandra Pesavento que aborda a memória como uma narrativa. Contou uma situação que eu não compreendi bem de alguém que relatava algo que parecia verídico, até o momento em que disse: “quando Hitler veio a minha casa”. Isso para destacar como a memória é repleta de elementos da imaginação. Disse que a pesquisadora deve ter cuidado para não induzir as respostas com as perguntas. Que faltou mais coragem teórica. Outra preciosidade: Tem um momento que é preciso desapegar. “Eu conheço gente que vai falar sobre Jogos em Pequim e começa na Grécia? (Por acaso lembrei de algo...) E passou para os procedimentos metodológicos? – como se construiu isso? Por que das escolhas? Qual foi o processo? (Ah, então, é isso?) Falta um certo alinhavo. Outra pérola: “O trabalho não acaba. A gente é que abandona ele!” E finalizou dizendo: O texto tem uma intensidade! Bem, vindo de quem?
Passamos para a Inês. Um trabalho fundamental. Uma apresentação excelente. Concordo com a Silvana que não tem problema. É preciso ir afunilando o tema. E não dá para deixar para depois. Tem que fazer desde agora. Vai ficar uma leitura agradabilíssima, maravilhosa (olha a palavra aí de novo). As entrevistas tem coisas importantíssimas. Tudo isso do lixo é maravilhoso (já enjoei), mas, como tu vais relacionar?
A Betha interrompe para complementar a idéia é consegue se sair com aquelas coisas dela: “eu estava aspirando a casa...”
Voltando a Inês: é muito interessante esta abordagem porque é em cima de impressões. Tu coloca tudo, mas, de um modo jogado. Falta link (disse ela esta palavra algumas vezes). É um trabalho muito humano, muito sensível.
Vamos para a Mirna: Uma apresentação muito linda. Particularmente emocionante. A imagem e a música. Um trunfo do trabalho tem a ver com experiência das pessoas.
Sugeriu Walter Beinjamin.
Estás falando do Grupo Tear e no teu trabalho falta esta trama. Sugiro reconstituir o espetáculo cena a cena, usando a estrutura do próprio espetáculo para organizar o trabalho. Voltar ao Le Coq que é a referência maior da Lena. Sinto falta da tua memória sobre o espetáculo, da repercussão em ti. O objeto é o Rei dos Vagabundos. É esta narrativa pessoal que vai estruturar o teu trabalho. Este espetáculo acabou? Não acabou?
Coisas práticas: cuidados com os parágrafos. Afirmações categóricas de onde vêm? Quem fala é a pesquisadora ou a pesquisadora apaixonada? Na página 8 tu fala em corpo, depois, nunca mais tu tocas no assunto e a Lena sempre teve uma posição muito especial sobre isso. Os corpos destes atores foram alterados pelo trabalho da Lena. Não temos memória? Temos, tanto que tem alguém fazendo um trabalho sobre."
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