Estrada da Vida

Conversando por telefone, anteontem, com o Ivo Bender, ele me lembrou de algo sensacional: a peça terminava com a música 'Estrada da Vida', grande sucesso sertanejo de Milionário e José Rico!

E eu estava há um tempo encafifada com esta música, tentando lembrar em que peça ela tocava!!!! Veja só como a memória nos prega peças!

Lembro bem da Nazaré Cavalcanti tocando violão (ou estou inventando?) e o Ivo me confirmou: logo entrava todo o elenco cantando junto! Cantando de um jeito engraçado, alongando os espaços entre as frases. Era lindo!

Estrada da Vida

Nesta longa estrada da vida,
vou correndo e não posso parar.
Na esperança de ser campeão,
alcançando o primeiro lugar,
Na esperança de ser campeão,
alcançando o primeiro lugar.

Mas o tempo cercou minha estrada
e o cansaço me dominou
minhas vistas se escureceram
e o final da corrida chegou.

Este é o exemplo da vida,
para quem não quer compreender:
Nós devemos ser o que somos,
ter aquilo que bem merecer.
Nós devemos ser o que somos,
ter aquilo que bem merecer.

Mas o tempo cercou minha estrada
e o cansaço me dominou
minhas vistas se escureceram
e o final desta vida chegou.


 

Franciscas...

Eu sou aficcionada pelo trabalho de Marina Lima e seu irmão poeta e filósofo Antônio Cícero.

Uma das músicas deles que tem rondado a minha mente nestes tempos de 'refeitura' do projeto, é Me Diga (Francisca). Esta música é baseada em 2 poemas do Cícero (Don'Ana e Francisca) que falam de mulheres que vieram 'do norte pro sul' em busca de melhores condições, mas sempre com o objetivo de retornar para a vida que as aguardava lá.

Me emociona o fato destas pessoas viverem de sonhos, lembranças e muita saudade. 'Lá ficava o mundo de verdade'. O mundo que é recriado e que vai sendo idealizado à medida que mais longe e distante fica...

 

 Me diga (Francisca) - M. Lima e A. Cícero

Francisca veio lá do norte, de onde
também vieram meus avós e pais
talvez em busca de novos horizontes
no tempo em que eu não era nem nascida 

Mas se eu nasci há tanto tempo já
Que meu passado está perdido em brumas
rasteiras e fumaça
, o que dizer
do dela?
Do dela tão mais distante? 

Me diga, Francisca, me diga… 

Francisca veio para o sul há tempos
e já chegou sonhando em retornar
e cultivar em meio a certas brenhas
algum roçado junto à sua mãe 

Ela era quase ainda uma criança
e lá ficava o mundo de verdade:
o sol a chuva a noite a festa a morte
a vida a aguardá-la, ainda mais distante
 

Me diga, Francisca, me diga… 

Parnaíba, Ipiranga, Rio Longá, Campo Maior… 

Um certo norte está onde ela está,
em frente à praia de Copacabana,
onde ela faz cuscuz, beiju ou peta
e seu sotaque é cada vez mais forte 

E ela ralha com o feirante esperto
e tem conversas com a mãe ausente
e o sabiá pousado no seu dedo
que aponta
algum lugar tão mais distante 

Entre o nordeste que deixou na infância
e o sul que nunca pareceu real
a Francisca tem saudade de uns lugares
que passam a existir quando ela os pinta
: 

São mares turquesados e espumantes
em frente a uns casarões abandonados
que, não sei bem porque, nos desamparam
no meio
de algum lugar tão distante 

Me diga Francisca, me diga…

 

Queria a 'penseira' de Dumbledore emprestada!

Quando penso em fios de lembranças, me vem à cabeça as cenas da 'pensadeira' (pensieve) do Dumbledore. Era lá que ele guardava sua memórias e foi através dela que muitos mistérios foram resolvidos. Com uma penseira eu poderia recompor facilmente a montagem dos Reis Vagabundos!!! hehe

Lendo o livro do Ivan Izquierdo, aprendi hoje que a memória evocada quando lembramos (ou esquecemos) coisas ligadas à nossa 'autobiografia', como os livros que lemos, filmes que vimos, peças que assistimos ou que fizemos é chamada de memória episódica.

Indo atrás deste termo, esbarrei no livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana de Umberto Eco. O livro é uma autobiografia 'disfarsada' e conta a história de um livreiro que acorda num belo dia em uma cama de hospital, sem saber absolutamente nada sobre si próprio. Quem era, se era casado, se tinha filhos...  Ele havia perdido a memória pessoal ou episódica, embora preservasse a memória coletiva, a chamada memória semântica.  Então, como forma de 'tratamento', vai para a propriedade rural da sua família e cercado de livros, gibis com histórias de Mickey, Flash Gordon e Dick Tracy, canções populares, hinos fascistas, embalagens de chocolate e brinquedos, começa a reconstruir sua história de vida e a dissipar a espessa névoa da memória. 

Me parece que Umberto Eco faz seu personagem lançar mão da intertextualidade ou dialogismo para recompor seu passado.

Eu pretendo, em minha dissertação, fazer um diálogo entre as lembranças das pessoas que assistiram, das pessoas que trabalharam na peça, os textos escritos (críticas e reportagens), as demais peças encenadas na mesma época (1982) em Porto Alegre, para tentar 'refazer textualmente, a montagem de 'Os Reis Vagabundos'. Rememorar um momento único do teatro gaúcho, que foi a montagem desta peça da Lena, usando as 'memórias alheias' como se fossem fios que se juntam para formar um tecido. Por acaso (?), o nome do grupo se chamava Tear.

Bakhtin concebeu o termo dialogismo na década de 20. Para ele, um texto não existe sem o outro. Ele achava que deveria sempre haver um diálogo entre 2 ou mais vozes. Entre 2 ou mais textos. Tanto para atrair como para rejeitar as idéias. Julia Kristeva criou o termo intertextualidade baseando-se no termo dialogismo de Bakhtin. Abro uma enorme 'aspas' pra me entender um pouco... O texto abaixo foi tirado do seguinte endereço http://www.unicamp.br/~hans/mh/intersec.html

"Referência obrigatória para se pensar a noção de intertextualidade é o trabalho da especialista em semiótica Júlia Kristeva que foi a primeira a empregar a expressão cuja raiz latina, o termo "intertexto", se refere, no ato de tecer, ao entrelaçamento dos fios.

Ao mencionar a intertextualidade em um ensaio publicado nos finais da década de 1960 Kristeva provocou uma espécie de ranhura profunda na idéia cristalizada e estabelecida sobre o autor como única fonte do texto, afirmando que tanto uma mesa posta para um jantar como um poema, enquanto sistemas de significantes são constituídos de sistemas significantes anteriores. Uma obra literária sob tal ótica não é simplesmente produto do trabalho de "escritura" de um único autor, ela nasce de seu relacionamento com outros textos e estruturas da própria linguagem.

Para Kristeva qualquer texto é construído em termos de um mosáico de citações, qualquer texto é a absorção e a transformação de outro." "

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